Retrofit: quando o antigo e o contemporâneo caminham juntos

O retrofit viabiliza que áreas com potencial construtivo esgotado sejam reinventadas. Essa tem se mostrado uma maneira eficaz de conseguir preservar o patrimônio de construções antigas relevantes.

Trata-se de uma alternativa a não idealizar que edificações existentes sejam mantidas apenas como espaços culturais, museus ou programas ligados a memória, atualizando-as para preservarem a sua história.

Falando em uma escala de cidade, para algo se manter em funcionamento, precisa ser rentável ou ter uso ativo. Por isso, é necessário reciclar o uso desses imóveis e conectá-los ao modo de vida atual. Em diversos lugares do mundo, vemos esse movimento de maneira bem-feita, preservando a escala de bairros, para refazer e atualizar as suas partes internas, qualificando tecnologias em esquadrias, vedações e acessibilidade.

Estive há algum tempo em Londres e me hospedei na casa de amigos – uma construção geminada em um bairro originalmente planejado como moradia para classe média. Embora o local tenha “hypado”, as edificações seguem bem preservadas externamente, mantendo as características originais. Internamente, foram redivididas em mais unidades, supermodernas, com linguagem contemporânea e sistemas de água, aquecimento e gás renovados.

O distrito de habitações populares modernista Cité du Grand Parc, em Bordeaux, na França, data dos anos 1970. Um projeto de revitalização de algumas torres previu, além da recuperação da estrutura, a criação de pátios internos e adensamento de varandas nas fachadas principais — Foto: Philippe Ruault/Divulgação
O distrito de habitações populares modernista Cité du Grand Parc, em Bordeaux, na França, data dos anos 1970. Um projeto de revitalização de algumas torres previu, além da recuperação da estrutura, a criação de pátios internos e adensamento de varandas nas fachadas principais — Foto: Philippe Ruault/Divulgação

Entendo que a verticalização em zonas conectadas a rotas de transporte público é algo importante para o melhor aproveitamento desses equipamentos urbanos, tornando compreensível a densificação de construções nessas áreas. Mas é assustador perceber como estamos perdendo o senso de preservação de qualquer memória de dimensão e estilo de bairros de caráter histórico.

Inclusive, acho curioso que o charme dessas alturas menores, os afastamentos, as casas charmosas antigas, transformadas em cafés, lojas, restaurantes e padarias, que, em teoria, atraíram as pessoas a viver nessas áreas, passem a ser demolidos em série, de forma que a cara do bairro passe a não existir mais.

O nível de verticalização nesses locais configura uma devastação total de bons espaços já conformados. Isso sem falar em solo permeável, que já não existe mais, substituído por uma grama plantada em cima de subsolos e subsolos de garagens.

O antigo edifício do Jornal A Tarde, em Salvador (BA), ficou anos fechado até ressurgir com a elegância de um projeto da rede de Hotéis Fasano, preservando a edificação, inclusive o letreiro original do jornal na fachada — Foto: Fasano/Divulgação
O antigo edifício do Jornal A Tarde, em Salvador (BA), ficou anos fechado até ressurgir com a elegância de um projeto da rede de Hotéis Fasano, preservando a edificação, inclusive o letreiro original do jornal na fachada — Foto: Fasano/Divulgação

Se olharmos para o centro das cidades, a quantidade de imóveis maravilhosos fechados é absurda. Talvez por descaso na conservação, pelo entorno complicado, pela vizinhança ou por altas taxas de manutenção condominial…

É fundamental que os investidores percebam o potencial desses edifícios, assim como quem rege o urbanismo das cidades fazer um movimento de incentivo para a reocupação desses espaços. É possível requalificar andares de edifícios enormes e bem construídos, que outrora receberam funções agora desnecessárias.

Uma iniciativa interessante de prefeituras tem sido incentivar a implementação de projetos de retrofit em construções existentes para transformá-las em moradia popular, principalmente nos centros. Claro que o “jeitinho brasileiro” já está, em alguns casos, dando conta de desvirtuar essa iniciativa, transformando edifícios que deviam abranger programas como o “Minha Casa Minha Vida” em quitinetes de luxo. Gourmetizados, sem intenção de atingir esse público ao qual, em teoria, deveriam ser destinados.

O edifício Renata, projeto original de Oswaldo Bratke de 1956, foi reconvertido de comercial para residencial pelo Metro Arquitetos, com novos elementos, como uma piscina em forma orgânica, aberta ao público no formato day use — Foto: Fran Parente/Divulgação
O edifício Renata, projeto original de Oswaldo Bratke de 1956, foi reconvertido de comercial para residencial pelo Metro Arquitetos, com novos elementos, como uma piscina em forma orgânica, aberta ao público no formato day use — Foto: Fran Parente/Divulgação

Com tantos imóveis de boa qualidade espacial, acho absurdo esse boom de micro-apartamentos de menos de 30 m² vendidos pelos mesmos valores de imóveis em prédios modernistas, cheios de potencial, bem localizados, com o triplo do tamanho. O marketing, que faz uso de palavras como sustentabilidade, para nas costelas-de-adão plantadas na entrada do prédio e no folder de vendas em tons de verde.

Outro ponto que precisa ser considerado na renovação de edificações existentes é o uso misto, com a ocupação comercial do térreo por serviços que atendam quem mora ao redor e geram segurança e movimento no entorno.

Cafés, espaços de coworking, bares, lojas cooperativas de pequenas marcas são ideias que possibilitam o uso desses espaços. Para trazer as pessoas de volta a essas regiões, é preciso conformar um conjunto de serviços e atrativos conectados com seus cotidianos.

Existe um campo do mercado imobiliário que já se volta para encontrar achados como esses imóveis cheios de potencial. Um movimento que apura o olhar de quem está buscando mais qualidade de vida, compreendendo a importância de reconhecermos valor na arquitetura existente das nossas cidades, e que parte dela pode ser mantida caminhando ao lado de renovações.

É preciso mudar o pensamento de que morar bem significa viver em algo novo, construído do zero. Ainda mais em uma arquitetura atual sem qualidade em linguagem e execução, repleta de modismos. Sem preocupação com o entorno, a história e a cidade, logo, sem personalidade, datado e descartável.

expresso.arq com informações de Daniel Bolson

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