Materiais de construção para aumentar a resiliência frente aos desastres naturais
As florestas de eucalipto na Austrália são conhecidas por queimarem periodicamente.
Essa também é uma forma de propagação das suas árvores, já que os frutos dessas espécies, conhecidos como “Gumnuts”, possuem uma camada isolante que é rompida com o calor do fogo.
Ao se abrirem, banham o solo queimado com sementes, iniciando um processo de renovação da floresta.
Glenn Murcutt, arquiteto australiano, tem uma obra enraizada na paisagem do país.
A inovação de suas casas é que elas não negam a possibilidade das frequentes queimadas, mas trazem elementos que as permitem controlá-los com o mínimo possível de perda.
Em suma, as residências são construídas com envoltórias de materiais muito pouco inflamáveis, sempre contam com enormes reservatórios de água e com um “sistema de inundação” que possibilita que a edificação e seu entorno imediato sejam poupados em um incêndio florestal.

No entanto, o que tem sido visto no país é que não são somente as florestas de eucalipto que tem queimado, mas também suas florestas tropicais, devastando grandes porções do território australiano.
Infelizmente, o país não é uma exceção.
Com o agravamento da crise climática, tem sido visto que os desastres naturais são mais frequentes e mais severos.
E isso deve se intensificar no futuro, se nada for feito.
Como arquitetos, há a possibilidade de mitigar isso?
Segundo o relatório mais recente do IPCC, o que parecia um futuro distópico já é nossa realidade.
“Secas devastadoras, calor extremo e inundações recordes já ameaçam a segurança alimentar e os meios de subsistência de milhões de pessoas. Desde 2008, inundações e tempestades catastróficas forçaram mais de 20 milhões de pessoas por ano a deixarem suas casas”.
Além da própria responsabilidade da indústria da construção civil de lutar contra as emissões de carbono, é inevitável que teremos que nos adaptar a um mundo em que teremos que ser mais resilientes.
Segundo este relatório sobre o tema da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as redes de infraestrutura serão afetadas pelos impactos físicos da variabilidade e das mudanças climáticas, mas também desempenharão um papel essencial na construção de resiliência a esses impactos.
Eventos extremos ilustram a extensão dessa exposição potencial.
Nesta mesma linha, o IPCC estima que a adaptação às mudanças climáticas, apenas nos países em desenvolvimento, vai chegar a US$ 127 bilhões até 2030 e a US$ 295 bilhões até 2050.

Superfícies permeáveis para controlar inundações
A urbanização intensa de grandes cidades pelo mundo impermeabilizou enormes quantidades do território e, muitas vezes, canalizou cursos d’água.
Durante uma chuva intensa, é comum que os sistemas de drenagem não deem conta e que inundações ocorram, trazendo destruição, prejuízos e riscos de vida e doenças aos moradores.
Se o prognóstico é que as chuvas fortes aumentem – e que o nível dos oceanos suba – é imprescindível trabalhar com maneiras de conviver com a água da melhor maneira possível.
Lançado pelo NACTO (National Association of City Transportation Officials), o Urban Street Stormwater Guide ilustra uma visão de como as cidades podem utilizar um de seus melhores ativos (suas ruas) para abordar a resiliência e as mudanças climáticas enquanto cria espaços públicos aprazíveis, agregando valor social e econômico e protegendo os recursos através da reconexão com os processos ecológicos naturais.
RAIN(A)WAY, por sua vez, é uma empresa que desenvolve produtos para resolver os problemas de água urbana.
Desenvolve modelos de ladrilhos cujo objetivo é armazenar água da chuva de maneira visível e original, permitindo que as superfícies atrasem a infiltração da água no solo ou nas infraestruturas urbana, reduzindo sua sobrecarga em um evento climático extremo.
Há também materiais em potencial para abordar essas questões.
Por exemplo, o AquiPor é um tipo de concreto permeável que permite que a água flua através dela infiltrando no solo, enquanto filtra a sujeira, os detritos e a poluição das partículas inerentes ao escoamento urbano das águas pluviais, gerenciando-a de maneira ecológica e eficiente.
Além disso, o material utiliza um cimento inerentemente de baixo carbono que requer uma fração da energia e emite uma fração do CO2 do que o concreto tradicional.
Artifícios para reduzir o calor
Um dos aspectos mais desafiadores da crise climática será atender as crescentes demandas de resfriamento de uma maneira sustentável.
Cabe dizer que resfriar edificações é muito mais complexo do que aquecer: qualquer forma de energia pode se transformar em calor, e nossos corpos e máquinas geram calor naturalmente, mesmo na ausência de sistemas de aquecimento ativos.
O resfriamento não se beneficia igualmente da geração espontânea, tornando-o frequentemente mais difícil, mais caro ou menos eficiente de implementar.
A imprensa especializada cobriu algumas dessas estratégias no passado, focando especificamente em materiais que levam ao resfriamento passivo e técnicas de ventilação natural, como ventilação cruzada ou efeito chaminé.
Entretanto, focar em envoltórias mais robustas e isoladas pode reduzir as demandas por resfriamento nas edificações.
Há produtos que abrangem essa questão atualmente.
Soldalit-Coolit é uma tinta sol-silicada inovadora, projetada para reduzir o aquecimento solar ao usar tons de cor escura.
Os revestimentos com tecnologia Keim Coolit têm uma pigmentação específica e, portanto, absorvem claramente menos energia solar.
Eles reduzem visivelmente a absorção térmica das superfícies da fachada e as tensões relacionadas à temperatura na estrutura de renderização são evitadas.

Outro artifício para os centros urbanos são as lajes jardins, que também auxiliam na absorção das chuvas.
Para os ocupantes, a vegetação reflete a maior parte da luz solar direta em vez de absorvê-la, e a umidade presente no substrato impede o ganho de calor da estrutura, proporcionando economia de energia para o resfriamento.
Em climas áridos, o aumento da inércia térmica aumentará o conforto, reduzindo as flutuações de temperatura nos interiores.
Além disso, geralmente qualifica-se como um espaço verde potencialmente utilizável e extremamente agradável.
Mas as vantagens não são apenas privadas.
Especialmente em cidades grandes e densas, a criação de telhados verdes pode mitigar as ilhas urbanas de calor.

Reconstrução rápida e auto reparação
Ainda assim, infelizmente eventos climáticos severos devem ocorrer.
Neste caso, é vital que as estruturas possam ser rapidamente reconstruídas e que a vida possa voltar ao normal, na medida do possível.
Construções modulares e pré-fabricação funcionam bem para tal, permitindo que edificações sejam montadas em pouco tempo, com menor consumo de matéria-prima e maiores previsibilidades no processo.

E a tecnologia também pode trazer inúmeras outras possibilidades que ainda nem podemos imaginar.
Por exemplo, a possibilidade de concreto e asfalto de auto repararem pode fazer com que as perdas e os inconvenientes sejam reduzidos sobremaneira.
Nunca é demais lembrar que a indústria da construção civil, além de tornar-se resiliente, tem um enorme papel para mudar o curso das mudanças climáticas.
Materiais com menor pegada de carbono e / ou reciclados devem ser especificados sempre que possível.
A janela de oportunidades para a ação climática está fechando rápido e, além de nos adaptarmos, devemos tomar decisões conscientes pensando no futuro.
expresso.arq sobre artigo de Eduardo Souza


