Materiais de construção para aumentar a resiliência frente aos desastres naturais

As florestas de eucalipto na Austrália são conhecidas por queimarem periodicamente.

Essa também é uma forma de propagação das suas árvores, já que os frutos dessas espécies, conhecidos como “Gumnuts”, possuem uma camada isolante que é rompida com o calor do fogo.

Ao se abrirem, banham o solo queimado com sementes, iniciando um processo de renovação da floresta. 

Glenn Murcutt, arquiteto australiano, tem uma obra enraizada na paisagem do país.

A inovação de suas casas é que elas não negam a possibilidade das frequentes queimadas, mas trazem elementos que as permitem controlá-los com o mínimo possível de perda.

Em suma, as residências são construídas com envoltórias de materiais muito pouco inflamáveis, sempre contam com enormes reservatórios de água e com um “sistema de inundação” que possibilita que a edificação e seu entorno imediato sejam poupados em um incêndio florestal.

Simpson – Lee House / Glenn Murcutt. Image © Anthony Brownell

No entanto, o que tem sido visto no país é que não são somente as florestas de eucalipto que tem queimado, mas também suas florestas tropicais, devastando grandes porções do território australiano.

Infelizmente, o país não é uma exceção.

Com o agravamento da crise climática, tem sido visto que os desastres naturais são mais frequentes e mais severos.

E isso deve se intensificar no futuro, se nada for feito.

Como arquitetos, há a possibilidade de mitigar isso?

Segundo o relatório mais recente do IPCC, o que parecia um futuro distópico já é nossa realidade.

“Secas devastadoras, calor extremo e inundações recordes já ameaçam a segurança alimentar e os meios de subsistência de milhões de pessoas. Desde 2008, inundações e tempestades catastróficas forçaram mais de 20 milhões de pessoas por ano a deixarem suas casas”.

Além da própria responsabilidade da indústria da construção civil de lutar contra as emissões de carbono, é inevitável que teremos que nos adaptar a um mundo em que teremos que ser mais resilientes.

Segundo este relatório sobre o tema da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as redes de infraestrutura serão afetadas pelos impactos físicos da variabilidade e das mudanças climáticas, mas também desempenharão um papel essencial na construção de resiliência a esses impactos.

Eventos extremos ilustram a extensão dessa exposição potencial.

Nesta mesma linha, o IPCC estima que a adaptação às mudanças climáticas, apenas nos países em desenvolvimento, vai chegar a US$ 127 bilhões até 2030 e a US$ 295 bilhões até 2050.

Skyscrapers in Dubai. Image © Badahos via Shutterstock

Superfícies permeáveis para controlar inundações

A urbanização intensa de grandes cidades pelo mundo impermeabilizou enormes quantidades do território e, muitas vezes, canalizou cursos d’água.

Durante uma chuva intensa, é comum que os sistemas de drenagem não deem conta e que inundações ocorram, trazendo destruição, prejuízos e riscos de vida e doenças aos moradores.

Se o prognóstico é que as chuvas fortes aumentem – e que o nível dos oceanos suba – é imprescindível trabalhar com maneiras de conviver com a água da melhor maneira possível.

Lançado pelo NACTO (National Association of City Transportation Officials), o Urban Street Stormwater Guide ilustra uma visão de como as cidades podem utilizar um de seus melhores ativos (suas ruas) para abordar a resiliência e as mudanças climáticas enquanto cria espaços públicos aprazíveis, agregando valor social e econômico e protegendo os recursos através da reconexão com os processos ecológicos naturais.

RAIN(A)WAY, por sua vez, é uma empresa que desenvolve produtos para resolver os problemas de água urbana.

Desenvolve modelos de ladrilhos cujo objetivo é armazenar água da chuva de maneira visível e original, permitindo que as superfícies atrasem a infiltração da água no solo ou nas infraestruturas urbana, reduzindo sua sobrecarga em um evento climático extremo.

Há também materiais em potencial para abordar essas questões.

Por exemplo, o AquiPor é um tipo de concreto permeável que permite que a água flua através dela infiltrando no solo, enquanto filtra a sujeira, os detritos e a poluição das partículas inerentes ao escoamento urbano das águas pluviais, gerenciando-a de maneira ecológica e eficiente.

Além disso, o material utiliza um cimento inerentemente de baixo carbono que requer uma fração da energia e emite uma fração do CO2 do que o concreto tradicional.

Artifícios para reduzir o calor

Um dos aspectos mais desafiadores da crise climática será atender as crescentes demandas de resfriamento de uma maneira sustentável.

Cabe dizer que resfriar edificações é muito mais complexo do que aquecer: qualquer forma de energia pode se transformar em calor, e nossos corpos e máquinas geram calor naturalmente, mesmo na ausência de sistemas de aquecimento ativos.

O resfriamento não se beneficia igualmente da geração espontânea, tornando-o frequentemente mais difícil, mais caro ou menos eficiente de implementar.

A imprensa especializada cobriu algumas dessas estratégias no passado, focando especificamente em materiais que levam ao resfriamento passivo e técnicas de ventilação natural, como ventilação cruzada ou efeito chaminé.

Entretanto, focar em envoltórias mais robustas e isoladas pode reduzir as demandas por resfriamento nas edificações.

Há produtos que abrangem essa questão atualmente. 

Soldalit-Coolit é uma tinta sol-silicada inovadora, projetada para reduzir o aquecimento solar ao usar tons de cor escura.

Os revestimentos com tecnologia Keim Coolit têm uma pigmentação específica e, portanto, absorvem claramente menos energia solar.

Eles reduzem visivelmente a absorção térmica das superfícies da fachada e as tensões relacionadas à temperatura na estrutura de renderização são evitadas.

Hospital Sarah Kubitschek Salvador / João Filgueiras Lima. Image © Nelson Kon

Outro artifício para os centros urbanos são as lajes jardins, que também auxiliam na absorção das chuvas.

Para os ocupantes, a vegetação reflete a maior parte da luz solar direta em vez de absorvê-la, e a umidade presente no substrato impede o ganho de calor da estrutura, proporcionando economia de energia para o resfriamento.

Em climas áridos, o aumento da inércia térmica aumentará o conforto, reduzindo as flutuações de temperatura nos interiores.

Além disso, geralmente qualifica-se como um espaço verde potencialmente utilizável e extremamente agradável.

Mas as vantagens não são apenas privadas.

Especialmente em cidades grandes e densas, a criação de telhados verdes pode mitigar as ilhas urbanas de calor.

Heat Reflecting Mineral Paint – Soldalit®-Coolit. Image Cortesia de KEIM

Reconstrução rápida e auto reparação

Ainda assim, infelizmente eventos climáticos severos devem ocorrer.

Neste caso, é vital que as estruturas possam ser rapidamente reconstruídas e que a vida possa voltar ao normal, na medida do possível. 

Construções modulares e pré-fabricação funcionam bem para tal, permitindo que edificações sejam montadas em pouco tempo, com menor consumo de matéria-prima e maiores previsibilidades no processo.

Espace Bienvenüe / Jean-Philippe Pargade. Image © Sergio Grazia

E a tecnologia também pode trazer inúmeras outras possibilidades que ainda nem podemos imaginar.

Por exemplo, a possibilidade de concreto e asfalto de auto repararem pode fazer com que as perdas e os inconvenientes sejam reduzidos sobremaneira.

Nunca é demais lembrar que a indústria da construção civil, além de tornar-se resiliente, tem um enorme papel para mudar o curso das mudanças climáticas.

Materiais com menor pegada de carbono e / ou reciclados devem ser especificados sempre que possível.

A janela de oportunidades para a ação climática está fechando rápido e, além de nos adaptarmos, devemos tomar decisões conscientes pensando no futuro.

expresso.arq sobre artigo de Eduardo Souza

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