Pânico no mercado
O noticiário macroeconômico doméstico ofuscou da quinta-feira (10) a intensa sessão de temporada de resultados, os indicadores internacionais e levou a um movimento de forte aversão ao risco do mercado, fazendo com que o Ibovespa registrasse queda de até 4,46%, aos 108.966 pontos, na mínima do dia, enquanto o dólar chegou a R$ 5,415 nas máximas.
No fim do pregão, o Ibovespa fechou recuando 3,35%, a 109.775 pontos, enquanto o dólar comercial subiu 4,14%, a R$ 5,396 na compra e R$ 5,397, em sua maior alta desde março de 2020.
O EWZ, que replica os ativos que compõe o Ibovespa em dólar, caiu 6,53%, também em sua maior queda desde março de 2020.
Notícias que ganharam força desde ontem – de que há proposta em avaliação pela equipe do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de retirar, de forma permanente, os desembolsos com transferência de renda do teto de gastos – geraram repercussão negativa entre os investidores.
A medida é uma das opções na mesa para viabilizar um Auxílio Brasil (que deve voltar a se chamar Bolsa Família) de R$ 600 no ano que vem.
Há uma grande preocupação no mercado sobre isso, porque a alternativa vem ganhando força na equipe de transição – que antes priorizava apenas uma “licença” temporária para gastar além do teto, por meio da chamada PEC da Transição. A avaliação é de que a saída possa deteriorar mais a trajetória da dívida pública.
Isso se somou, durante o dia, aos dados do IPCA de outubro acima do esperado, com uma alta de 0,59% na comparação mensal, enquanto o consenso Refinitiv projetava avanço de 0,48%, também pressionando a curva de juros.
Para completar, durante a tarde o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, anunciou novos nomes que integrarão a equipe de transição de governo.
Dentre eles, as atenções se voltaram para o de Guido Mantega, o mais longevo ministro da Fazenda do País (2006-2014) e que também comandou o Ministério do Planejamento (2003-2004). O economista deverá integrar o grupo que se debruçará sobre o debate orçamentário.
Com o risco fiscal e a alta do IPCA, os juros dispararam. No Tesouro Direto, títulos públicos prefixados terminaram o dia pagando mais de 13% ao ano.
Para Luca Mercadante economista da Rio Bravo, os dados do IPCA voltaram a representar um sinal ruim para a dinâmica de inflação.
“A volta do IPCA para terreno positivo já era esperada, entretanto, tivemos uma elevação dos preços acima das expectativas e com um qualitativo ruim. Núcleos voltaram a acelerar, serviços se mantiveram pressionados, bem como bens industriais”, comenta.
Nos Estados Unidos, aconteceu exatamente o movimento contrário.
As bolsas subiram depois que os investidores foram surpreendidos por uma inflação ao consumidor mais suave do que o esperado nos Estados Unidos em outubro – o índice de preços ao consumidor (CPI), acumula 7,7% em 12 meses, ante um consenso de mercado que esperava 8%.
Ao mesmo tempo, o número de pedidos-desemprego subiu a 225 mil, acima do que a maior parte dos economistas esperava, que eram 220 mil.
O número foi lido como um indicativo de que o mercado de trabalho americano está desacelerando, como é a intenção do Federal Reserve (Fed, banco central americano), que vem agindo na política monetária para reduzir o ritmo da economia e desacelerar a inflação.
Conclusão, na B3, só quem se salvou foram os BDRs, recibos de ativos negociados em bolsas estrangeiras e listados no mercado local. “A variação [da cotação] dos BDRs é igual à variação da ação original mais a variação do câmbio. E hoje o dólar estressou bastante”, explica Felipe Paletta, sócio da Monett.
expresso.arq sobre artigo de Mariana Segala


