Cadeira dobrável: quando surgiu a peça que virou símbolo da luta racial?

No ano passado, um objeto comum do cotidiano veio a se tornar um símbolo contra a agressão racial: uma cadeira dobrável branca. O móvel não só protagonizou memes, como também inspirou o design de camisas, brincos e até mesmo uma tatuagem.

Em 5 de agosto de 2023, em um cais localizado em Montgomery, no estado de Alabama, nos Estados Unidos, um grupo de velejadores brancos atacou Dameion Pickett, capitão negro de um barco fluvial, após ele insistir que atracassem o seu pontão em outro lugar, alegando que o espaço estava reservado para embarcações maiores.

Daí se iniciou uma briga generalizada, com um grupo – formado por negros, em sua maioria – correndo e nadando até o cais para defender o capitão. No meio da cena, surgiu uma cadeira dobrável branca, empunhada por um dos homens como arma improvável.

Posteriormente, o móvel se tornou uma bandeira de valores e ideais, sendo cobiçado por muitos internautas que viam nele a representação da força e unidade negra em uma cidade extremamente marcada pelo comércio de escravos e movimento dos direitos civis.

Intrigados pelo destaque dado à cadeira dobrável, passamos a nos questionar: de onde ela surgiu? Quem é o seu criador? Por que ela parece estar por todos os lugares?

Para entender, conversamos com André Danemberg, arquiteto e pesquisador do mobiliário europeu; e Graziela Nivoloni, coordenadora da graduação de Design de Produto e Serviço do IED São Paulo.

A origem da cadeira dobrável

As pesquisas de André informam que a cadeira dobrável mais antiga é um exemplar português, que faz parte do acervo do Museu Nacional de Arte Antiga de Lisboa e data da segunda metade do século 17.

“Classificada como ‘cadeira de campo’, [o móvel] tinha como função servir ao conforto daqueles que estivessem ao ar livre. De jacarandá, couro e taxados, ela é proveniente do Convento de São Bento, localizado em Viana do Castelo”, diz o arquiteto.

Por muito tempo, a cadeira era vista como símbolo de poder e era associada à hierarquia — Foto: Unsplash / Haley Lawrence / Creative Commons
Por muito tempo, a cadeira era vista como símbolo de poder e era associada à hierarquia — Foto: Unsplash / Haley Lawrence / Creative Commons

Como muitos outros móveis e designs assinados, esta cadeira é um reflexo das necessidades do homem no seu dia a dia diante das tecnologias e dos materiais disponíveis naquele contexto.

“O mobiliário surgiu para ser móvel. Quando vemos em filmes os nobres e a família real se deslocando, observamos também grandes caravanas, porque essas pessoas transportavam igualmente os seus móveis – algo que não fazemos mais”, comenta Graziela.

Contar com dobraduras e outros artifícios funcionais, assim, não é algo moderno. Segundo Graziela, os designs dobráveis da atualidade, que podem parecer inovadores, são, na verdade, a apropriação de um conceito que remete mesmo à Idade Média.

Naquele tempo, a cadeira estava também associada à hierarquia, pois somente os nobres, reis ou o clero podiam se sentar em cadeiras. Não é à toa que usamos o termo “cadeira” para nos referirmos a posições de prestígio em determinado ambiente – por exemplo, quando dizemos que alguém “ocupa a cadeira de diretor” de uma instituição.

Cadeira dobrável de Guldhøj, uma das descobertas do cemitério nórdico — Foto: Wikipedia / Bullenwächter - Nationalmuseet / Wikimedia Commons
Cadeira dobrável de Guldhøj, uma das descobertas do cemitério nórdico — Foto: Wikipedia / Bullenwächter – Nationalmuseet / Wikimedia Commons

Falamos das cadeiras dobráveis na Idade Média e Contemporânea na Europa. Mas o Museu Nacional da Dinamarca, por sua vez, afirma aqui que esses móveis eram usados pelas culturas urbanas e palácios da região do Mediterrâneo entre os séculos 15 e 13 a.C.

“As cadeiras também foram usadas como bens funerários nas sepulturas mais ricas. Por exemplo, uma bela cadeira dobrável estava no túmulo de Tutancâmon, no Egito. Era feita de ébano e marfim e tinha detalhes de ouro. Tutancâmon morreu em 1327 a.C. Por volta do ano 1400 a.C., cadeiras dobráveis ​​apareceram no norte da Europa”, escreve a página do museu.

A página descreve, ainda, uma cadeira encontrada em Guldhøj, um túmulo nórdico. Datada da Idade do Bronze Nórdica e encontrada em um dos caixões do túmulo, o móvel revela inspiração em modelos distantes e era um símbolo de status nas cerimônias.

Mas, atualmente, Graziela acredita que o efeito das cadeiras dobráveis seja o oposto. “Eu acho que a cadeira dobrável desconstrói um pouco disso, porque qualquer um pode se acomodar nela ou se organizar ao redor dela. É possível abrir, fechar e armazenar com muita facilidade”, afirma.

A cadeira dobrável não é uma novidade dos tempos modernos e surgiu como uma resposta às demandas da sociedade — Foto: Unsplash / Daniel McCullough / Creative Commons
A cadeira dobrável não é uma novidade dos tempos modernos e surgiu como uma resposta às demandas da sociedade — Foto: Unsplash / Daniel McCullough / Creative Commons

Afinal de contas, agora, outras demandas e realidades se impõem, desafiando o design. “Essa cadeira [da briga em Montgomery] é uma que se encaixa em todos os lugares, pensando nesse mundo contemporâneo líquido, onde se percebe uma velocidade e necessidade de acomodação e reacomodação frequente”, diz.

A cadeira de Montgomery

Como visto, suscitaram muitos designs de cadeiras dobráveis ao longo da história e ao redor do mundo, cada uma respondendo às necessidades de seu tempo e contexto.

O projeto específico da cadeira que roubou a cena na briga em Montgomery parece ter sido criada por Werner Clarin, à frente da empresa Clarin Corporation, fundada em 1925.

Ao menos é o que defende a empresa, que afirma que a primeira cadeira dobrável produzida toda de aço foi fabricada nos Estados Unidos em 1928. A Clarin existe até hoje e disponibiliza outros modelos de cadeira dobrável, inclusive aqueles usados por celebridades nos assentos de quadra dos jogos da NBA.

Aqui no Brasil, Lina Bo Bardi também desenhou cadeiras dobráveis, que, hoje, são comercializadas pela Etel. De estilo modernista, o design foi criado para o auditório da primeira sede do MASP, na rua Sete de Abril, e foi inspirado nas cadeiras de circo itinerante.

Cadeira Auditório Masp, como é chamada, é empilhável e feita de madeira de jacarandá maciça e composta por duas cintas de couro – uma no encosto e uma no assento.

“No momento em que o mobiliário para auditório era todo estofado, enrijecido e fixo, Lina fala ‘não, eu preciso de outro desenho'”, conta Graziela. Assim, cria a sua cadeira dobrável modernista.

Apelo da cadeira dobrável

A facilidade de montagem e armazenamento é um dos atributos mais destacáveis da cadeira dobrável, que, atualmente, costuma ser acessível — Foto: Unsplash / wu yi / Creative Commons
A facilidade de montagem e armazenamento é um dos atributos mais destacáveis da cadeira dobrável, que, atualmente, costuma ser acessível — Foto: Unsplash / wu yi / Creative Commons

Antes símbolo hierárquico, hoje, a cadeira dobrável é acessível a muita gente. Nas palavras de André, ela “traz conforto, locomoção, praticidade e reflete de maneira ímpar a necessidade do homem”.

É comum vermos o design de Montgomery e muitas derivações em lugares como bares e botecos, o que transparece o seu apelo popular. Nesses ambientes, contar com móveis empilháveis, de fácil armazenamento, transporte e manutenção é importante, o que torna a cadeira uma solução acertada para a demanda que se impõe.

“É quase como as Havaianas. Tem gente que usa para passear e, para outros, pode ser o único calçado acessível. Mas quase todo mundo tem ou consegue comprar uma”, comenta Graziela.

Segundo ela, ambos os objetos conversam intrinsecamente com a identidade brasileira. “Em muitas cidades do Brasil existe essa característica do boteco, de sentar e jogar conversa fora, e envolve desde ícones da nossa cultura e da MPB até à pessoa que trabalha na obra e, ao final das sextas-feiras, passa pelo boteco da periferia”, diz.

Nesses lugares genuinamente brasileiros, é fácil imaginar a cadeira dobrável que dá descanso a quem se veste de Havaianas. De fato, todo mundo usa.

expresso.arq com informações de Yara Guerra

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