Como trazer um toque de brasilidade para a decoração sem clichês

Valorizar a brasilidade em projetos de interiores é ir além de uma simples escolha de materiais, texturas ou cores: é reconhecer a história, a diversidade e a potência criativa que moldam a identidade do país. É sobre fazer escolhas conscientes, que dialoguem com saberes tradicionais, técnicas artesanais e a produção cultural contemporânea, criando conexões entre passado e presente ao unir cultura, memória e pertencimento.

Para entender melhor como a cultura e história brasileiras podem permear a decoração, a Casa Vogue conversou com os arquitetos Luís Guedes e Pablo do Vale. A dupla, à frente do escritório Guá Arquitetura e listada no Casa Vogue 50, busca preservar conhecimentos, exaltar a natureza e as tradições do Norte do Brasil em seus trabalhos — seja na arquitetura ou no design. Confira:

Tudo começa com pesquisa

O closet do projeto é permeado pela poltrona Edinaldo e pelos bancos de madeira, tudo do Guá Arquitetura, e a escultura de roda-gigante de miriti feita por artesãos de Abaetetuba, PA — Foto: Filippo Bamberghi
O closet do projeto é permeado pela poltrona Edinaldo e pelos bancos de madeira, tudo do Guá Arquitetura, e a escultura de roda-gigante de miriti feita por artesãos de Abaetetuba, PA — Foto: Filippo Bamberghi

“Acho que é muito interessante que o Brasil, na verdade, são vários Brasis. E eu acho que a brasilidade está nessa diversidade”, define Luís Guedes. Por isso, a dupla aconselha que tudo comece por um passo essencial: a pesquisa. É fundamental entender quem são os artistas, artesãos e designers da região, o que estão produzindo e qual é a importância de seu trabalho para a cultura local. Aqui, vale utilizar diversas ferramentas: feiras locais, galerias de arte e até as redes sociais.

O mesmo vale quando falamos sobre a escolha de materiais e texturas. Conhecer as materialidades da sua região e compreender como elas podem ser aplicadas na decoração é também uma forma de valorizar a brasilidade dentro de casa. A dupla cita o exemplo do miriti, palmeira nativa da Amazônia muito utilizada no Pará na confecção de brinquedos artesanais. “O miriti, por exemplo, é um material comum em Belém, mas ninguém conversava sobre sua aplicabilidade além dos brinquedos. Atualmente, estamos explorando como o miriti pode virar móvel, papel, textura de parede”, conta a dupla.

Valorize a produção nacional

A sala de jantar do projeto conta com cerâmicas de Mestre Cardoso e Levy Cardoso, marcenaria da Celmar Belém, fotografia de Luiz Braga, telas de Emmanuel Nassar e cerâmica do povo palicur, na Ygarapé — Foto: Filippo Bamberghi
A sala de jantar do projeto conta com cerâmicas de Mestre Cardoso e Levy Cardoso, marcenaria da Celmar Belém, fotografia de Luiz Braga, telas de Emmanuel Nassar e cerâmica do povo palicur, na Ygarapé — Foto: Filippo Bamberghi

O Brasil possui inúmeros designers e artistas reconhecidos internacionalmente — e entender sua importância e legado é essencial. No entanto, valorizar a produção nacional vai além disso. Luís e Pablo lembram da importância de reconhecer o trabalho de artesãos e mestres locais, que transmitem seus saberes por gerações e traduzem a brasilidade de maneira autêntica. “Nossas escolhas podem dar suporte e visibilidade para artesãos e artistas em ascensão. Esses pequenos promotores de cultura detêm o espírito da região. Esses saberes tão culturais e tão potentes não estão no mainstream — está na pessoa que está ali resistindo”, explica Luís.

Além disso, Pablo do Vale reforça a importância de valorizar também as culturas e produções de outras regiões do Brasil, para além da sua própria. “Para a gente é muito importante entender que podemos — e devemos — consumir a cultura de todo o Brasil. Apesar de sermos territorializados, podemos nos identificar com cultura e arte popular de várias regiões. Não existe um só Brasil, existe um Brasil plural — e o bonito é isso”, completa.

Faxina

A dupla também ressalta a importância de conhecer quem está por trás das obras, entendendo que cada peça carrega o nome e a história de alguém. “Quando você entende que existe um artista por trás daquela obra, você se encanta. Nosso papel enquanto arquitetos é apresentar essas pessoas e contar suas histórias aos clientes. Levar o cliente à galeria, à casa do artesão. Criar essa ponte. Quando o cliente se encanta, ele vira um mecenas dessas artes. E o artesão também se sente valorizado”, afirmam.

Resgate sua ancestralidade

Para Luís Guedes e Pablo do Vale, valorizar a ancestralidade é entender como o passado pode impactar o futuro — Foto: Filippo Bamberghi
Para Luís Guedes e Pablo do Vale, valorizar a ancestralidade é entender como o passado pode impactar o futuro — Foto: Filippo Bamberghi

“Quando falamos de ancestralidade, falamos de resistência”, ressaltam Luís e Pablo. Olhar para o passado e compreender como ele impacta o presente é uma forma de reconhecer e honrar as raízes brasileiras dentro de casa. Como exemplo, a dupla cita os ceramistas da Ilha de Marajó, no Pará, que até hoje preservam saberes e estéticas artísticas pré-colombianas. “São saberes que são passados de pai para filho, um conhecimento oral que resistiu à tentativa de apagamento. Eles veem achados arqueológicos e reproduzem ornamentos e cerâmicas como forma de dizer que nossa cultura precisa permanecer”, comentam.

Não tenha medo de ousar

O quarto do projeto possui escultura de barco da Caroço Arte, tela do abridor de letras Biduia, ilustração da Kambô Art, fotografia de Mauricio Adinolfi e almofada da Ygarapé — Foto: Filippo Bamberghi
O quarto do projeto possui escultura de barco da Caroço Arte, tela do abridor de letras Biduia, ilustração da Kambô Art, fotografia de Mauricio Adinolfi e almofada da Ygarapé — Foto: Filippo Bamberghi

Anos de apagamento cultural contribuíram para a construção da ideia de que a cultura brasileira pode ser brega ou caricata. Sobre isso, os arquitetos aconselham: “A primeira dica é não ter medo. Por muito tempo as pessoas tiveram medo do Brasil profundo”, revelam. Esse preconceito pode limitar a compreensão do que é uma brasilidade autêntica. “Às vezes o que chamam de caricato é sinônimo de originalidade. E toda originalidade causa resistência. Abraçar a cultura brasileira é um movimento de revolução”, pontuam.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.
Ops! Captcha inválido, por favor verifique se o captcha está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.