Mercado de iates bomba e tem fila de espera de dois anos no Brasi

Quem decidir comprar um megaiate 27 Metri, da marca italiana Azimut, além de desembolsar pelo menos R$ 54 milhões (preço inicial da embarcação), precisa de uma boa dose de paciência: a fila de espera por uma embarcação dessas – que está entre as mais caras e luxuosas do Brasil – chega a dois anos.

No entanto, preço e prazo de entrega não têm afugentado clientes.

Para se ter uma ideia, desde 2020, quando o 27 Metri foi lançado no País, o estaleiro já vendeu 12 unidades da embarcação, sendo que quatro clientes ainda aguardam a entrega.

O nome completo Azimut Grande 27 Metri já é uma descrição literal das dimensões da embarcação, considerada um “megaiate”.

No Brasil, iates a partir de 24 metros (cerca de 80 pés) recebem o prefixo “mega”.

É em um modelo desses que o jogador português Cristiano Ronaldo descansa seus pés.

Fábrica de iates de luxo da Azimut em Itajaí (SC). Foto: Anderson Coelho/Estadão 

Com 27 metros de comprimento e cerca de 350 m2 de área total (incluindo os espaços externos), o 27 Metri tem cinco suítes, com movelaria e ambientes assinados por renomados designers e arquitetos italianos.

A área de popa (parte traseira) tem churrasqueira e deck móvel, que desce até o nível da água, para criar uma “praia” particular.

O flybridge (deck no terceiro pavimento) tem bar, área gourmet, posto de comando secundário e até opção de jacuzzi.

O megaiate dispõe de garagem para motos aquáticas ou pequenas embarcações, além de duas cabines com banheiros e área para refeições da tripulação.

A construção do casco emprega fibra de carbono (mesmo material utilizado em carros de Fórmula 1), o que garante rigidez estrutural e baixo peso.

Assim como a Azimut Yachts, marca que se estabeleceu no Brasil em 2010, de olho no potencial do mercado, outros estaleiros também verificaram aumento de demanda, impulsionada pela pandemia.

A menos de 10 km da Azimut, em Itajaí, no litoral de Santa Catarina, a Okean Yachts abriu um segundo turno de produção no segundo semestre de 2022, para elevar a produção e diminuir o tempo de entrega.

De acordo com o CEO do Grupo Okean, Roberto Paião, funcionando das 6h às 22h, a expectativa é chegar a produzir 60 embarcações por ano.

Paião diz que, após a tensão gerada no começo da pandemia, o mercado “se descortinou”.

Segundo ele, o estaleiro entrou na pandemia com cerca de cinco contratos por ano e saiu com 22 barcos negociados anualmente.

Segundo a Associação Brasileira dos Construtores de Barcos e Implementos (Acobar), apenas o segmento que engloba barcos de esporte e recreação de fibra de vidro de 16 a 100 pés faturou R$ 2 bilhões em 2021, alta de 25% em relação a 2020 (R$ 1,6 bilhão).

Isolamento no mar

“A pandemia trouxe a visão de que o mar é um lugar seguro. Pessoas que nunca tiveram barco passaram a usá-lo como se fosse um apartamento na praia”, afirma Paião, acrescentando que 30% de sua clientela atual está adquirindo a primeira embarcação.

Ele diz que, durante o período de isolamento social, na fase mais severa da crise sanitária, muitas famílias passaram a viver em barcos, atracados em marinas ou não, e esse movimento impulsionou o que ele chama de “economia do mar”, que envolve uma ampla cadeia de força de trabalho em estaleiros, marinas e nos próprios barcos.

Iate de luxo da Azimut recebe pintura. Foto: Anderson Coelho/Estadão 

O estaleiro mudou-se de São Paulo para Itajaí no começo de 2021, e desde então tem passado por um crescimento constante.

Dos 40 funcionários iniciais, saltou para 330 este ano e, de acordo com Paião, o plano é alcançar 400 empregados no final de 2023, numa gama de especialistas que inclui engenheiros navais, mecânicos, marceneiros, tapeceiros e eletricistas, entre outros.

A planta original, com 4 mil m2, foi ampliada para 10 mil m2 cobertos.

Com isso, o objetivo é reduzir o tempo de produção. Inicialmente, eram necessários cerca de 120 dias para montagem, tempo que já baixou para 90.

A meta é fazer um barco a cada 30 dias em 2023, diz Paião.

A empresa tem duas linhas de iates: além das embarcações que levam o nome Okean e se destinam basicamente à exportação, o estaleiro produz iates da italiana Ferretti (da qual é representante desde 2020), a partir de kits importados da Europa, para venda no País.

Estaleiro da Ferretti em Sarnico, na Itália: marca é representada no Brasil pela Okean Yachts Foto: Stefano Rellandini/Reuters – 7.abr.2015

Das oito unidades vendidas em 2021, a Okean dobrou o volume em 2022.

O objetivo agora é subir para 22 em 2023 e alcançar 30 em 2024.

Quanto aos modelos da Ferretti, das cinco unidades de 2022, o estaleiro planeja produzir 15 em 2023, sete dos quais já estão vendidos.

A venda antecipada, a propósito, é uma característica desse segmento.

O cliente paga e entra na fila.

Dificilmente há um barco novo em estoque.

Como exemplo, de acordo com fontes, até mesmo o barco mais caro exibido na edição 2022 do São Paulo Boat Show, realizada em setembro – o megaiate Intermarine 24M -, avaliado em cerca de R$ 36 milhões, já estava vendido.

Segundo o CEO da Okean, a fila de espera varia de quatro a seis meses para os barcos menores, e de cinco a oito meses para as embarcações de maior porte.

Em 2022, o faturamento da empresa foi de cerca de R$ 150 milhões, quase o triplo em relação aos R$ 60 milhões de 2021.

Para 2023, Paião projeta faturamento de R$ 400 milhões.

Segundo o executivo, a Ferretti já responde pela metade do faturamento.

Como o modelo italiano é produzido com kits importados e a maior parte das vendas da Okean é exportada,

Paião diz que consegue equilíbrio cambial.

“Como eu compro em euro e dólar, preciso ter receita também em euro e dólar”.

Entre os países para os quais a Okean exporta estão França, Estados Unidos, Espanha e Portugal, além de Japão e Austrália, mercados conquistados em 2022 pelo estaleiro.

Embarcações recebem últimos retoques em fábrica; fila de espera por iate pode chegar a dois anos. Foto: Anderson Coelho/Estadão 

Projetos híbridos

Para contornar pressões que elevaram os preços dos insumos – caso de inflação e falta de peças, motivadas pela guerra na Ucrânia e pandemia -, Paião afirma que a saída é buscar “inovação da porta para dentro”. “Temos de achar caminhos de sustentação, para ganhar em produtividade e eficiência.” Segundo ele, isso significa investir em “inteligência de produção”, para manter custos e melhorar a qualidade.

Nessa linha, a empresa começou a desenvolver um iate híbrido, combinando motores a diesel e elétrico.

De acordo com Paião, o protótipo deve ser feito em 2023, e o modelo deve ficar pronto em 2024.

O mercado naval (navios de operação comercial) está nesse caminho há muitos anos; agora é a vez da náutica (que envolve os barcos recreativos)”, diz.

Ainda no tema ESG (meio ambiente, social e governança, na sigla em inglês), a Okean prevê a entrega em fevereiro de um barco com 20% de redução de emissão de poluentes, graças à captação de energia solar.

Sala do megaiate 27 Metri, da marca italiana Azimut, vendido no País por ao menos R$ 54 milhões 

Barcos maiores

O CEO da Armatti, Fernando Assinato, destaca outra tendência.

Além do crescimento de vendas em números absolutos, ele revela que os barcos mais procurados são os maiores.

“O mercado está para barcos grandes”, afirma.

Embora a linha da Armatti tenha modelos de 26 a 52 pés, Assinato diz que em 2021 fez mais de 20 barcos entre 39 e 42 pés, e apenas dois de 26 pés.

“Antes, barco de 30 pés era barco de entrada. Hoje, começa no de 37 pés. O cliente já entra em um barco grande”.

O executivo comemora o fechamento de um contrato recente de exportação com os Estados Unidos, que prevê a entrega de dez barcos de 39 pés, sendo um por mês.

Com isso, ele informa que já tem vendas programadas até outubro de 2023.

Além dos EUA, os barcos produzidos pelo estaleiro navegam também por águas da Austrália, do Paraguai, da Argentina, da Tailândia e de Portugal.

Segundo ele, sua capacidade de produção, atualmente na faixa de 50 barcos por ano, pode subir a 60 no ano que vem, “com possibilidade de chegar a 100, no futuro”.

O tempo de produção, no entanto, aumenta muito, a depender das proporções da embarcação.

“Uma embarcação de 30 pés é feita em 20 dias; uma de 42 pés, em quatro meses”, exemplifica.

Para elevar a capacidade, o estaleiro localizado em São José, também em Santa Catarina, recentemente ampliou as instalações de 5.900 m2 para 9 mil m2.

E Assinato revela que já tem um terreno de 10 mil m² reservado para futura ampliação.

Atualmente, são 140 funcionários (dos quais 60 contratados recentemente), mas o CEO planeja abrir mais 60 vagas.

O tíquete médio de seus barcos é de R$ 2 milhões, mas pode chegar a R$ 6 milhões, no caso de um modelo de 52 pés.

De acordo com Assinato, em 2022 o faturamento foi de cerca de R$ 30 milhões, volume 20% a mais que o de 2021, mesmo parando a produção durante dois meses por causa da mudança da fábrica.

Deck da embarcação produzida no litoral de Santa Catarina/Foto: Azimut/Divulgação 

Marinas

O bom momento verificado nos estaleiros também é observado nas marinas.

A BR Marinas, maior empresa do setor no País – com oito endereços e quase 2,4 mil vagas para barcos no Estado do Rio de Janeiro -, teve faturamento de R$ 94 milhões em 2022, crescimento de 17% em relação a 2021.

Para 2023, a estimativa é chegar a R$ 110 milhões.

“Os brasileiros descobriram como é bom estar a bordo de um barco, e isso não tem volta”, diz a CEO da empresa, Gabriela Lobato Marins.

O grupo se prepara para inaugurar uma nova unidade ainda no primeiro semestre de 2023, em Angra dos Reis.

Com obras orçadas em R$ 4,5 milhões, a Marina Bracuhy terá 415 vagas, 30 das quais destinadas aos megaiates, uma tendência do mercado.

Há também planos de se expandir nos próximos meses para outros Estados, como Bahia, Santa Catarina ou São Paulo.

O empresário carioca Paulo Thadeu Figueira Mendes costuma trocar de lancha todos os anos, e por duas razões: ele mescla a experiência de um cliente comum com a necessidade de “pesquisa”, já que é proprietário de um estaleiro no Rio de Janeiro, o Real Powerboats.

Segundo Mendes, o objetivo dessa prática é “entender as necessidades do cliente”. “O Brasil tem uma diversidade de opções de lazer náutico muito grande e pouco explorada”, afirma. “Vim passar o final de ano em Salvador e descobri outras formas de uso da embarcação”, diz.

“Além da baía de Todos-os-Santos, um local abrigado em que os barcos são usados como em Angra (dos Reis) ou (no litoral norte de) São Paulo, aqui eles fazem outro uso. Em vez de passar o dia (ancorados) no mar e voltar à tarde, eles navegam por várias ilhas afastadas e entram pelos rios da região”, diz.

“Eu, que sou do mercado há muito tempo, não conhecia o uso que eles dão aqui. Agora, vou fazer outro passeio, no qual você entra pelo rio e chega a uma cachoeira. Lá, dá para colocar a proa do barco debaixo da cachoeira”.

 Aparentemente, o velho ditado que dizia que barco dava duas alegrias – na compra e na venda – naufragou.

expresso.arq sobre artigo de Hairton Ponciano

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