Novo sistema de pagamentos global da China mira o Brasil e desafia o poder dos EUA

Pequim já não fala em criar uma “moeda dos BRICS”.

O verdadeiro movimento estratégico está no CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), a rede chinesa que pretende reduzir a dependência do SWIFT e abrir espaço para liquidações em yuan no comércio internacional.

E o Brasil, maior parceiro comercial da China na América Latina, surge como um dos pontos-chave para essa transformação.

O que é o CIPS e por que o Brasil importa

Criado em 2015, o CIPS já conecta mais de 170 instituições financeiras diretamente e quase 1.500 indiretamente, em 119 países.

Só em 2024, processou o equivalente a US$ 24,5 trilhões em operações.

Diferente do SWIFT, que funciona apenas como mensageria, o CIPS combina mensagens e liquidação, permitindo que transações sejam feitas em yuan sem passar obrigatoriamente pelo dólar.

No caso do Brasil, isso significa que exportadores de soja, minério e petróleo poderiam receber diretamente em RMB, reduzindo custos com câmbio e diminuindo a exposição a sanções financeiras.

Para Pequim, integrar o Brasil ao sistema é estratégico: além do peso das commodities brasileiras, trata-se de consolidar um aliado na América Latina para fortalecer a internacionalização do yuan.

Geopolítica e riscos para os EUA

O avanço do CIPS tem um claro vetor político. Desde 2022, o uso do dólar como arma de sanção elevou a preocupação de vários países em criar alternativas.

A China já testa interconexões entre o CIPS e o SPFS, sistema russo, construindo uma rede paralela que escapa ao alcance direto de Washington.

Para os EUA, o perigo não está numa “moeda BRICS” inexistente, mas na capacidade de Brasil, China, Rússia e parceiros liquidarem fora do ecossistema do dólar.

Esquema ilustrativo do funcionamento de uma transferência internacional via sistema SWIFT, onde o Banco A (remetente) envia a instrução de pagamento através da rede SWIFT ao banco correspondente (Banco C), que processa e intermedeia a operação, encaminhando os fundos ao Banco B (destinatário).

Donald Trump já sinalizou tarifas de até 100% para países que apoiem alternativas ao dólar.

Mas essa postura pode ter efeito inverso: acelerar a adesão de economias emergentes ao CIPS, justamente para proteger suas cadeias de exportação.

O que muda para bancos e empresas brasileiras

Na prática, o impacto será sentido no bolso.

Hoje, empresas brasileiras que vendem para a China costumam liquidar via SWIFT, com conversão para dólar e depois para yuan.

Esse processo encarece operações e alonga prazos.

Com o CIPS, o pagamento pode ser feito diretamente em RMB, reduzindo tarifas, aumentando velocidade e mitigando riscos cambiais.

Além disso, para bancos brasileiros, integrar-se ao CIPS abre espaço para captar parte dos fluxos financeiros globais em yuan.

Não à toa, já existem negociações para ampliar linhas de swap entre os dois países e instalar novos bancos de compensação em RMB no Brasil, como forma de dar liquidez à moeda chinesa no mercado local.

Desafios e próximos passos

Apesar do crescimento acelerado, o CIPS ainda enfrenta barreiras.

Muitos dos participantes internacionais continuam expostos ao sistema americano, o que pode limitar a autonomia do projeto em cenários de sanções.

No Brasil, a adesão depende de ajustes regulatórios, interesse dos bancos privados e aceitação das empresas em assumir contratos diretamente em yuan.

Nos próximos dois anos, será decisivo acompanhar:

  • O aumento do comércio Brasil–China liquidado em RMB;
  • A instalação de bancos de compensação de yuan em território brasileiro;
  • A eventual integração do CIPS com plataformas digitais, como o mBridge, que testa liquidação instantânea entre bancos centrais.

O ponto central é que, para a China, não se trata de destruir o dólar de um dia para o outro, mas de criar margens de manobra.

Se o Brasil embarcar nesse movimento, pode se tornar peça-chave de uma arquitetura financeira global que reduz a centralidade dos EUA e inaugura um novo mapa de poder econômico.

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