Os Anéis do Poder e o papel da arquitetura na obra de J.R.R. Tolkien

Na obra cinematográfica, a arquitetura escolhida e desenhada para compor a imagem pode se comunicar com o espectador de muitas formas. 

Edifícios e cidades podem informar a localidade através de monumentos conhecidos ou tipos de construções específicas para determinados climas, assim como pode indicar o recorte temporal através de estéticas construtivas. 

Obras de fantasia possibilitam um infinito campo de criação na composição de detalhes arquitetônicos e design de interiores.

Diante de uma cenografia inteiramente criada para contar histórias, podemos identificar diversas inspirações em movimentos artísticos por parte do autor. 

Buscar e identificar essas recriações pode ser um ótimo exercício para aprimorar o olhar e conhecimento sobre técnicas, movimentos e estilos arquitetônicos. 

Além desses atributos, a arquitetura pode ganhar significados mais profundos na narrativa, de acordo como são enquadrados, explorados e colocados em cena, dialogando muitas vezes com os personagens. 

É possível observar grandiosidade da obra de J. R. R. Tolkien na riqueza de detalhes, nos personagens bem escritos e nas imagens encantadoras e bucólicas. 

O autor de O Senhor dos Anéis esmiúça cada parte do seu universo nas páginas, que ganharam composições imagéticas no cinema e no streaming

Recentemente foi lançada a série Os Anéis do Poder, que narra acontecimentos da Terra Média que antecedem O Senhor dos Anéis

Além das paisagens encantadoras apresentadas na série, ambientes internos e desenhos arquitetônicos também se destacam pela beleza e riqueza de detalhes. 

O universo de Tolkien conta com diversas criaturas, como magos, hobbits, elfos, anões, orcs e seres humanos, onde cada um apresenta um modo de vida diferente, refletindo nos seus espaços e adornos utilizados. 

Os ambientes apresentam referências tanto da arquitetura gótica quanto do art nouveau, e é possível observá-las na cidade élfica de Lindon e em Númenor, reino dos Homens.

Espaços externos de Lindon. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video

Não existe um livro específico no qual a série tenha se inspirado. Foram coletadas informações dos chamados Apêndices de O senhor dos Anéis, que posteriormente foram reunidos e publicados no livro O Silmarillion, após a morte do autor. 

Arquitetura Gótica 

A arquitetura gótica nasceu na região da Normandia (norte da França) no final do século XII, e autores afirmam que ela funcionou como uma substituta da arquitetura românica, estilo muito popular antes do seu surgimento. 

O fortalecimento da igreja católica em decorrência das Cruzadas contribuiu para o rápido desenvolvimento e disseminação do estilo gótico na Europa: ainda que outras edificações apresentem esse estilo, ela de destaca nas edificações religiosas. 

Do ponto de vista arquitetônico, a grande descoberta desse estilo foi o desenvolvimento do arco ogival. 

Essa estrutura surgiu para substituir o arco semicircular muito usado na arquitetura românica, e seu desenho forma um ângulo mais ou menos agudo na parte superior. Geometricamente, o arco ogival é mais difícil de ser projetado. 

Mas possibilitou e execução de construções cada vez mais altas, porque o formato que ele apresenta distribui as forças de maneira mais uniforme, suportando melhor o peso da edificação. 

Por essa razão esse elemento é muito percebido em catedrais e igrejas, já que a altura era associada à proximidade com o céu. 

Representações do arco ogival. Fonte: Guide for Drawing The Acanthus (1886)

Dentre as várias criaturas idealizadas por Tolkien, como hobbits, orcs e magos, os elfos são uma das principais raças escritas pelo autor, baseados nas criaturas lendárias da mitologia nórdica. 

São descritos como altos e belos, parecidos com os Valar, outros seres criados pelo autor com poderes angelicais, como anjos. 

Os arcos ogivais estão muito presentes na cidade élfica de Lindon, e seus desenhos altos e pontiagudos dialogam com o poder e grandiosidade do povo élfico, representado por uma essa arquitetura imponente. 

A cidade de Lindon. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video
Os espaços internos de Lindon. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video

Art Nouveau

Ornato, decorativo e assimétrico, o Art Nouveau foi um movimento artístico de vanguarda com expressão em diferentes meios, como mobiliários, utensílios, adornos de iluminação, interiores, artes decorativas e arquitetura. 

Se opondo ao classicismo e ao ecletismo, o movimento artístico surgiu no final do século XIX e, de acordo com Colin, teve influência do movimento Neogótico, de onde adquiriu uma de suas principais características: o culto da linha.  

“De fato, a linha, não o volume, a cor, ou o efeito de massa, vai se tornar a marca do Art Nouveau. Entretanto a linha vai desempenhar um papel diferente da linha força, que desenhava os esforços das estruturas góticas”, explica Silvio Colin.

 Linhas curvas, assimétricas e delicadas, o prestígio das formas orgânicas, o uso de vidro e ferro, mosaicos, vitrais e a natureza como inspiração são as características mais marcantes do movimento. 

Também apresenta alguns traços do estilo barroco (como o uso do dourado e sensação de perpetuidade e grandeza) e do estilo rococó (como linhas curvas e design elegante). 

Móveis como estantes, cabeceira de cama e luminárias presentes na sala de Celebrimbor, personagem élfico, e em outros espaços de Lindon apresentam essas características de forma marcante, como o desenho de folhagens e traços orgânicos. 

Detalhes percebidos também em Númenor: nas esquadrias e outros móveis no quarto do rei, no Salão do Saber e em outros espaços do reino.

Espaços internos de Lindon, com cortinas de cabeceiras ornamentadas. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video

As linhas curvas se inspiram nas linhas flutuantes e imprevisíveis da natureza, como raízes, caules e flores com a intenção de estabilizar algo que se move. 

O reino élfico vai além desse modo de criar seus espaços e permite a profunda integração da natureza e seus próprios traços, apresentando o verde em quase todos os seus espaços.

Espaços internos de Númenor, reino dos Homens. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video

Assim como o uso da linha curva, uma das características mais marcantes e talvez a mais perceptível é o proveito que os artistas tiravam da natureza:

“A natureza é um grande livro do qual podemos tirar inspiração, e é dentro desse que devemos buscar princípios, os quais, quando encontrados devem ser definidos e aplicados pela mente de acordo com as necessidades humanas”,  dizJames Grady

Resgatando características do estilo barroco, os aposentos de Númenor apresentam também a forte presença do dourado e sensação de infinidade e grandeza. 

Cada enquadramento de Os Anéis do Poder pode ser uma grande fonte de inspiração! 

Abaixo conseguimos perceber a semelhança entre os espaços do reino élfico com a Casa Tassel, projetada por Victor Horta no estilo Art Nouveu, localizada em Bruxelas.

Espaços internos de Númenor, reino dos Homens. Fonte: captura de tela de “Os Anéis do Poder” (2022) – Amazon Prime Video

Referências biliográficas

  • BENEVOLO, Leonardo. História da Arquitetura Moderna. Trad. Ana M. Goldberger. São Paulo: Editora Perspectiva, 1989.
  • COLIN, Silvio. A Poética do Art Nouveau na Arquitetura. Disponível em: <http://coisasdaarquitetura.wordpress.com/2011/07/09/a-poetica-do-art-nouveau-na-arquitetura/>. Acesso: 03 de maio, 2012.
  • CUDDON. The Penguin Dictionary of Literary Terms and Literary Theory, p. 77.
  • GRADY, James. Nature and the Art Nouveau. The Art Bulletin, Vol. 37, No. 3, p. 187-192, Set, 1955.
  • O SENHOR DOS ANÉIS: Os anéis do poder, 1ª temporada. Título original: The Lord of the Rings: The rings of power. Direção: J.A. Bayona. Produção: Ron Ames e Chris Newman. Estados Unidos; Amazon Studios; Dobly Atmon, 2022.
  • VIEIRA, Miriam de Paiva. O lugar da natureza no movimento Art Nouveau. Cadernos Benjaminianos, n. 6, Belo Horizonte, 2012.
  • Dictionary of Literary Terms and Literary Theoty
  • O CONTO DA AIA, 1ª temporada. Direção: Reed Morano e outros; Produção: Marissa Jo Cerar e outros. Estados Unidos; MGM e HULU, 2017.

expresso.arq sobre artigo de Melissa Almeida

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1 Comentário

  1. Oiê, bom dia, me chamo Rian, e você não imagina a alegria de ler essa página, sou fã de Tolkien e quero ser um arquiteto que busca reproduzir esse conteúdo no áudio visual, por isso escrevo, pois que lê tem o conhecimento, e se puder me orientar a que caminho seguir, ficarei eternamente grato, acabei de terminar o Ensino médio, estou disposto a dedicar a minha vida a esse trabalho.

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