Reconhecido como doença, casos de Burnout aumentam em todo o mundo
A comunidade científica internacional classifica, finalmente, a Síndrome de Burnout como enfermidade.
Comprova também que a sua origem é o estresse advindo de qualquer atividade profissional e diz que ela só pode ser tratada por especialistas

Igualmente a outras áreas do conhecimento, também na medicina a realidade e o dia a dia enriquecem a teoria.
Nos últimos anos foram tantos os casos de Síndrome de Burnout em todo o mundo, que a OMS oficializou-a como uma enfermidade crônica a ponto de incluí-la na mais recente versão do Código Internacional de Doenças (CID 11).
Burnout consta agora da bíblia da saúde, a pessoa por ela acometida tem de ser tratada por especialistas e respeitada pela sociedade em geral – em particular, nos meios profissionais.
Por que? A resposta está em sua origem: a Síndrome de Burnout, que também pode ser chamada de Síndrome do Esgotamento, está intrinsecamente associada à rotina de trabalho.
Ela se faz sinalizar pelo sentimento de grande estresse físico e mental, queda brusca na qualidade do serviço executado e, mais importante, pelo fenômeno psiquiátrico da despersonalização — quando o indivíduo cumpre as suas tarefas de forma robotizada e demonstra embotamento afetivo em relação ao grupo no qual vive.
“O trabalhador com Burnout gasta todo o seu estoque de energia biopsíquica e depois fica exaurido”, diz Fábio Scaramboni Cantinelli, chefe de Psiquiatria do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.
“O paciente demora muito para restituir a energia que despendeu”.

Foi em 1974 que o psicólogo alemão Herbert J. Freudenberger deu a mais perfeita definição desse mal, valendo-se da metáfora de um palito de fósforo: uma vez aceso, ele ostenta uma vigorosa chama, mas, após alguns segundos, vai paulatinamente perdendo-a.
Chega o momento em que o palito apaga.
A bancária paulista Amélia Cristina Marques, 46 anos, sentiu-se exatamente assim.
Ela está sob cuidados médicos há quatro anos.
“Não conseguia nem mesmo levantar da cama”, diz a bancária.
Há vinte e oito anos na função, Amélia se olhava no espelho e se negava admitir-se doente e que precisava de ajuda especializada.
“Hoje faço psicoterapia e tomo medicamentos que me são receitados”.
A instituição financeira, da qual está licenciada, compreendeu que se trata de doença e a amparou.
Mas, em um País no qual até a depressão ainda é vista como “fazer corpo mole” diante do trabalho, Amélia foi hostilizada por alguns colegas desinformados.
“Alguns deles não acreditavam que eu estava doente. Por isso me desrespeitaram”.
Esse é um dos motivos que levou a paulista Maria (sobrenome preservado a seu pedido) a desenvolver a síndrome quando colocou toda a sua energia no trabalho, deixando em planos secundários sua vida pessoal e emocional.
Pode-se mesurar o alcance da doença pelo índice colhido junto ao INSS: quintuplicou o número de solicitações de auxílio doença, motivados por Burnout, entre março e abril de 2020.
O número de pedidos chegou a quinhentos mil. O estresse da pandemia e o decorrente medo da morte é claro que tiverem papel importante nesse astronômico aumento de requisições.
Apesar de a Síndrome do Esgotamento estar fortemente relacionada com o mundo do trabalho, não é raro ver pessoas envolvidas em outras atividades também desenvolverem a enfermidade – mas seu pano de fundo, digamos assim, é sempre o profundo estresse.
Douglas Pinheiro é padre e, pouco depois de um ano de seu ordenamento, passou a sentir os sintomas da síndrome, estreitamente similares aos do transtorno da ansiedade generalizada.
“Sentia muito sono, tinha crises de choro, palpitações, falta de ar e inquietação constante”, diz o padre.
Ele atua em seu sacerdócio na cidade paulista de Jandira, e na época em que começou a sofrer de burnout cuidava de nove igrejas ao mesmo tempo, além de se dedicar ao magistério universitário.
“Passei por tratamento psicológico e agora estou melhor”, diz Pinheiro.
Por se tratar de um religioso, aparentemente o processo foi mais doloroso.
Ele explica diz que não compreendia como o trabalho para o qual tanto se preparou estava lhe fazendo mal: “executava, cada vez, mais e mais, tarefas”.
Atualmente, o padre conseguiu estabelecer uma rotina mais harmoniosa de trabalho. Dedica-se a seis paróquias.
expresso.arq sobre artigo de Fernando Lavieri


