Reconhecido como doença, casos de Burnout aumentam em todo o mundo

A comunidade científica internacional classifica, finalmente, a Síndrome de Burnout como enfermidade.

Comprova também que a sua origem é o estresse advindo de qualquer atividade profissional e diz que ela só pode ser tratada por especialistas

“Não conseguia nem mesmo levantar da cama” Amélia Cristina Marques, bancária (Crédito: GABRIEL REIS)

Igualmente a outras áreas do conhecimento, também na medicina a realidade e o dia a dia enriquecem a teoria.

Nos últimos anos foram tantos os casos de Síndrome de Burnout em todo o mundo, que a OMS oficializou-a como uma enfermidade crônica a ponto de incluí-la na mais recente versão do Código Internacional de Doenças (CID 11).

Burnout consta agora da bíblia da saúde, a pessoa por ela acometida tem de ser tratada por especialistas e respeitada pela sociedade em geral – em particular, nos meios profissionais.

Por que? A resposta está em sua origem: a Síndrome de Burnout, que também pode ser chamada de Síndrome do Esgotamento, está intrinsecamente associada à rotina de trabalho.

Ela se faz sinalizar pelo sentimento de grande estresse físico e mental, queda brusca na qualidade do serviço executado e, mais importante, pelo fenômeno psiquiátrico da despersonalização — quando o indivíduo cumpre as suas tarefas de forma robotizada e demonstra embotamento afetivo em relação ao grupo no qual vive.

“O trabalhador com Burnout gasta todo o seu estoque de energia biopsíquica e depois fica exaurido”, diz Fábio Scaramboni Cantinelli, chefe de Psiquiatria do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo.

“O paciente demora muito para restituir a energia que despendeu”.

O psiquiatra Fábio Cantinelli detalha: o trabalhador perde as energias para executar as tarefas (Crédito:GABRIEL REIS)

Foi em 1974 que o psicólogo alemão Herbert J. Freudenberger deu a mais perfeita definição desse mal, valendo-se da metáfora de um palito de fósforo: uma vez aceso, ele ostenta uma vigorosa chama, mas, após alguns segundos, vai paulatinamente perdendo-a.

Chega o momento em que o palito apaga.

A bancária paulista Amélia Cristina Marques, 46 anos, sentiu-se exatamente assim.

Ela está sob cuidados médicos há quatro anos.

“Não conseguia nem mesmo levantar da cama”, diz a bancária.

Há vinte e oito anos na função, Amélia se olhava no espelho e se negava admitir-se doente e que precisava de ajuda especializada.

“Hoje faço psicoterapia e tomo medicamentos que me são receitados”.

A instituição financeira, da qual está licenciada, compreendeu que se trata de doença e a amparou.

Mas, em um País no qual até a depressão ainda é vista como “fazer corpo mole” diante do trabalho, Amélia foi hostilizada por alguns colegas desinformados.

“Alguns deles não acreditavam que eu estava doente. Por isso me desrespeitaram”.

Esse é um dos motivos que levou a paulista Maria (sobrenome preservado a seu pedido) a desenvolver a síndrome quando colocou toda a sua energia no trabalho, deixando em planos secundários sua vida pessoal e emocional.

Pode-se mesurar o alcance da doença pelo índice colhido junto ao INSS: quintuplicou o número de solicitações de auxílio doença, motivados por Burnout, entre março e abril de 2020.

O número de pedidos chegou a quinhentos mil. O estresse da pandemia e o decorrente medo da morte é claro que tiverem papel importante nesse astronômico aumento de requisições.

Apesar de a Síndrome do Esgotamento estar fortemente relacionada com o mundo do trabalho, não é raro ver pessoas envolvidas em outras atividades também desenvolverem a enfermidade – mas seu pano de fundo, digamos assim, é sempre o profundo estresse.

Douglas Pinheiro é padre e, pouco depois de um ano de seu ordenamento, passou a sentir os sintomas da síndrome, estreitamente similares aos do transtorno da ansiedade generalizada.

“Sentia muito sono, tinha crises de choro, palpitações, falta de ar e inquietação constante”, diz o padre.

Ele atua em seu sacerdócio na cidade paulista de Jandira, e na época em que começou a sofrer de burnout cuidava de nove igrejas ao mesmo tempo, além de se dedicar ao magistério universitário.

“Passei por tratamento psicológico e agora estou melhor”, diz Pinheiro.

Por se tratar de um religioso, aparentemente o processo foi mais doloroso.

Ele explica diz que não compreendia como o trabalho para o qual tanto se preparou estava lhe fazendo mal: “executava, cada vez, mais e mais, tarefas”.

Atualmente, o padre conseguiu estabelecer uma rotina mais harmoniosa de trabalho. Dedica-se a seis paróquias.

expresso.arq sobre artigo de Fernando Lavieri

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