Uma ponte de corda tecida a mão que é reconstruída todos os anos

Na cordilheira dos Andes peruanos, a mais de 3.700 metros de altitude, está localizada a ponte suspensa de corda Q’eswachaka, declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

A ponte tecida à mão, que une as duas encostas sobre o rio Apurimac, tornou-se a última ponte inca em uso que sobreviveu à modernidade.

Isso foi possível graças à transmissão da cultura e engenharia inca ao longo de suas gerações, que renovam a ponte todos os anos para sua conservação.

Jolyn Chua. Imagem via Shutterstock

A três horas e meia da cidade de Cusco, no distrito de Quehue, a ponte Q’eswachaka possui 29 metros de comprimento e 1,20 metros de largura, e faz parte da extensa rede de caminhos do Império Inca Qhapaq Ñan, onde pontes suspensas foram feitas de fibras vegetais para atravessar a geografia acidentada dos Andes.

Por isso, nos últimos 600 anos, as famílias das comunidades Chaupibanda, Choccayhua, Huinchiri e Ccollana se reuniram anualmente para a renovação da ponte Q’eswachaka.

É um processo ancestral que dura três dias e termina com um festival de danças nativas.

Puente Q’eswachaka. Image Cortesía de Peru Flying Labs

O processo de preparação para a construção da ponte começa dias antes (no final de maio), quando os moradores das quatro comunidades se reúnem para coletar o q’oya, fibra vegetal resistente que constitui a material base da ponte.

Posteriormente, ele é secado por um dia inteiro, antes de ser batido com pedras e encharcado para endurecer.

Concluído o primeiro processo, as famílias procedem à confecção do q’iswa, que é composto por vários q’oyas que formam uma corda.

Puente Q’eswachaka. Image Cortesía de Peru Flying Labs

Uma vez iniciado o mês de junho, começa a etapa de construção da ponte com a tradicional “celebração à terra”.

Em seguida, uma família de cada comunidade tem a obrigação de carregar um longo q’iswa, que será entregue à autoridade reguladora encarregada de registrar a participação de cada uma delas.

Posteriormente, os q’iswas são estendidos e entrelaçados para obter uma corda mais grossa e resistente.

Esta nova corda será utilizada para formar as bases e corrimãos da ponte.

No final do dia, as grandes cordas são transportadas para as extremidades da Q’eswachaka para uso no dia seguinte.

Puente Q’eswachaka. Image Cortesía de Peru Flying Labs

Assim como no primeiro dia, o segundo começa com a tradicional celebração de “pagamento à Pacha mama” (terra) antes das obras.

Em seguida, um morador atravessa um longo q’iswa pela encosta, que servirá de guia para o transporte de suprimentos durante a reforma da ponte.

Puente Q’eswachaka. Image Cortesía de Peru Flying Labs

Logo, são posicionadas as bases da ponte e as cordas, que funcionarão como corrimãos, são amarradas nas extremidades da encosta.

Uma vez instaladas, a ponte antiga é descartada.

Todo esse complexo processo é supervisionado pelo engenheiro andino Chakaruwaq, encarregado de verificar a boa construção da ponte.

O terceiro dia começa com a instalação das laterais da ponte, que são posicionadas pelo engenheiro andino junto com seus assistentes.

Estes são divididos em dois grupos de 3 homens, um em cada extremidade, que iniciam a tecelagem através da união das cordas de base com os corrimãos e terminam quando se encontram no meio da ponte.

Durante esse longo processo, os moradores das comunidades se reúnem para preparar, com base em folhas, galhos e q’iswa, o fundo que cobrirá o piso da ponte.

Por outro lado, também são posicionados os callapos, longos galhos que servem para dar maior estabilidade à estrutura.

No pôr do sol, terminada a reconstrução, as autoridades locais são as primeiras a atravessar os 29 metros que separam as margens do rio, e assim termina a reforma da última ponte inca.

Danita Delimont. Imagem via Shutterstock

Por fim, terminada a reconstrução da ponte, as comunidades se reúnem para festejar com danças, cantos e comidas tradicionais, até o anoitecer.

A construção desta obra de engenharia, uma ponte de palha sem partes metálicas, mantém-se viva graças ao conhecimento herdado através da transmissão oral.

Portanto, a ponte Q’eswachaka não é apenas uma obra-prima da engenharia ancestral, mas também uma amostra da cultura ancestral que sobrevive no coração dos Andes peruanos.

Puente Q’eswachaka. Image Cortesía de Peru Flying Labs

expresso.arq sobre artigo de  Vania Masalías | Traduzido por Camilla Ghisleni

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